
Leia antes de entrar na Internet
Por José
Alessandro Oliveira
(matéria
publicada no Jornal Fala São João)
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No mês passado, o francês, filósofo e teórico da Cybercultura, Pierre Lévy esteve em Porto Alegre. Assisti à palestra dele e vou compartilhar com os leitores algumas anotações que considero passíveis de reflexão.
Lévy expôs sua teoria da “Civilização da Inteligência Coletiva” durante a palestra. Para ele, vida é a “capacidade que as coisas têm de se reproduzir de formas diferentes”, seja biológica ou não. Sendo assim a linguagem é algo vivo, pois se reproduz através da comunicação. E, “informaticamente” falando, um vírus de computador tem vida, já que se auto-reproduz. Outro conceito esclarecido por Pierre Lévy foi “o que é digital?” (código de essência combinatória sem coerência com seu resultado). Ele caracteriza o DNA como sendo um código digital também.
O filósofo traça uma linha evolutiva da humanidade baseando suas etapas na capacidade criativa dos seres. Calma... é fácil entender, vamos por partes:
As formas biológicas que viviam na terra nos primórdios tempos, organizaram-se criativamente gerando um sistema nervoso (o humano) que, por sua vez, começou a interpretar o que estava a sua volta através de sentidos: olfato, paladar, visão, etc. Observe que a criatividade foi a alavanca para a evolução. Agora, vou descrever as etapas de evolução explicadas por Pierre Lévy, durante a palestra:
Linguagem: a expressão da interpretação que o cérebro faz do que há em seu redor. Os seres que dominaram a linguagem (os homens) se salientaram dos demais, dominando-os. A oralidade tinha caráter essencialmente democrático.
Escrita: a memória autônoma da linguagem. Os povos que, primeiramente, utilizaram a escrita, se sobressaíram dos demais. Novamente, a criatividade, foi a alavanca de evolução. Surge uma nova maneira de relação com o mundo. Antes, o oral não tinha como ser registrado, era apenas reproduzido. Com a escrita, a linguagem ganha mais autonomia. A palavra dita podia ser modificada, a escrita não se apaga, criando uma noção de historicidade que não existia antes. Surge a História.
Alfabeto: o código universal da linguagem. Acontece a dominação dos impérios alfabéticos (Alexandre, César, Mohamed...). Os povos que, criativamente, usaram a escrita, dominaram os demais. Surgem, nesta época, o comércio e a moeda. Na política surgem as cidades, a democracia, que tinha como condição básica o conhecimento do alfabeto. Em virtude da alfabetização, os povos têm consciência da história numa linha de tempo organizada. O espaço desse cenário é universal e abstrato.
Prensa: a reprodução autônoma da linguagem. A comunicação de massa. Um povo criou uma maneira de registrar o alfabeto e reproduzi-lo: os europeus. Começa, aqui, a dominação mundial por esta sociedade. Na economia, surge a indústria de massa, o capitalismo. A política reconhece a opinião pública com a democracia moderna. Neste cenário, o espaço se dá na interconexão do planeta. No final desta etapa, surgem meios que evidenciam as externalizações das percepções humanas (televisão, um olho coletivo e o rádio, um ouvido coletivo). Porém, esses meios disseminam pontos de vista parciais como se fossem verdades absolutas. Logo, promovem uma falsa participação e interação de quem os recebe.
Cyberespaço: a vida da linguagem. Segundo Lévy: “O cyberespaço realiza a unidade do ecossistema lingüístico, cultural em geral. Multiplica espécies e cria novas espécies: literatura, teatro, romance, e-mail, sites...”. A sociedade que mais, criativamente, usou a prensa, criou o cyberespaço. E, esta sociedade, a americana, promove a dominação sobre as demais. Neste cenário, a economia é baseada nas idéias, na inteligência e criatividade coletivas. As idéias terão cada vez mais valor. “Através das idéias que se criam riquezas”. Na política, começa a emergir uma confederação mundial à democracia eletrônica. O espaço deste cenário é virtual, enquanto o tempo é mais real que nas outras etapas.
Conclui-se que, podemos subdividir a evolução da humanidade, em quatro níveis: oral, escrito, meios de comunicação de massa e o que surge com a internet, a rede da informação.
Pierre Lévy pede atenção para que não interpretem essas etapas como sendo cada uma a substituta da seguinte, mas sim, que elas fazem parte de um todo, e que as etapas anteriores continuam ocorrendo e não vão deixar de acontecer, seja numa visão macro ou micro.
Essas foram as anotações que fiz durante a palestra, o ideal mesmo é que todos os interessados estivessem presentes. Porém, para quem gostou do assunto e quer mais, basta procurar os livros de Pierre Lévy nas livrarias, ou, antes disso, dar uma olhada no site http://www.vetorvirtual.cjb.net/ que possui vários textos sobre os livros de Lévy.
"Proponho, juntamente com outros, aproveitar esse momento raro em que se anuncia uma cultura nova para orientar deliberadamente a evolução em curso. Raciocinar em termos de impacto é condenar-se a padecer. De novo, a técnica propõe, mas o homem dispõe. Cessemos de diabolizar o virtual (como se fosse contrário do real!). A escolha não é entre a nostalgia de um real datado e um virtual ameaçador ou excitante, mas entre diferentes concepções do virtual. A alternativa é simples. Ou o ciberespaço reproduzirá o mediático, o espetacular, o consumo de informação mercantil e a exclusão numa escala ainda mais gigantesca que hoje. Esta é, a grosso modo, a tendência natural das 'supervias da informação' ou da 'televisão interativa'. Ou acompanhamos as tendências mais positivas da evolução em curso e criamos um projeto de civilização centrado sobre os coletivos inteligentes..." - Pierre Lévy, 1995. Trecho extraído do livro “O que é o virtual?”
José Alessandro de Oliveira - josealessandro@yahoo.com.br