
Freud
também explica a Internet...
A
Internet sob uma visão psicanalítica
Por José
Alessandro Oliveira
(crônica publicada no jornal de bairro Fala São João)
Autorização gratuita para reprodução: (51) 990-171-59 ou josealessandro@yahoo.com.br
Após assistir à palestra "Realidade, simbolização e virtualidade", promovida pela Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre durante a II Bienal do Mercosul, fiquei dias pensando mais profundamente sobre a Internet. Os tópicos relatados pelo palestrante me fizeram ver a Internet com outro olhar, ou melhor, outros olhares bem diferentes daquela visão técnica e funcional, comum a quase todos internatutas.
Então, este mês, vou compartilhar com os leitores deste jornal, um pouco do que consegui assimilar com os relatos de Roy Ascott, professor das Universidades de Wales e de Plymouth - Inglaterra.
Basta parar um minuto, ou até menos, e observar o fluxo de pensamentos expostos em uma sala de bate-papo: Observe que NÃO são frases que surgem do nada (ou do computador)... Observe que aqueles nomes (ou nicks) são representações de pessoas, de mentes, são projeções de consciências... Observe que aquele "local", aquela sala, inexiste (segundo nossa lógica natural)... Observe que o fator tempo possui um valor distinto e independente para cada ser que ali está (não existe um agora comum)...
Na Internet não existe o "agora" como o conhecemos. O "agora" pode ser o momento de um clique num botão desenhado na tela, o momento do envio de uma mensagem que chegará agora em outro país, ou, com o web-mail, chegará agora em qualquer lugar do planeta (ou do universo?). A Internet altera os atributos de espaço e de tempo.
A Internet é a interação maciça de mentes. A pessoa projeta sua consciência, sua mente, distribuindo-a entre comunidades, entre outras pessoas, formando uma consciência coletiva, uma "cyberpercepção"...
A Internet é um espaço de múltiplas autorias. Autorias completamente livres. Autoria de personalidade, de espaço e de tempo. Você consegue perceber distintamente cada uma destas autorias quando se conecta à Internet? Esses três fatores juntos são uma espécie de "cyber-representação" de uma realidade virtual.
Mas o que é virtual? Veja bem, virtual não é o oposto de real. O virtual não se confronta com o real, ele se opõe ao ATUAL. O virtual é o real em potência. Veja: A árvore existe na semente, assim como o homem existe no espermatozóide. Este "existir" é o virtual. É a existência em potência e não em ato. Leia "O que é o Virtual?" de Pierre Levy, para compreender melhor.
Com o uso da Internet o homem desenvolve uma "dupla consciência". Ele possui dois diferentes, distintos e simultâneos campos de experiências e vivências, possui dois diferentes, distintos e simultâneos modos de visão e, enfim dois diferentes, distintos e simultâneos modos de ser. Sempre um na Internet e outro fora dela. Você consegue perceber o quão abrangente é tudo isso?
Enfim, a Internet não é simplesmente computadores conectados às linhas telefônicas comunicando-se livremente... é muito mais que isso, muito mais mesmo. São pessoas criando novas personalidades, que criam novas concepções de local, de tempo, de relacionamentos, de realidade, de natureza como um todo. E, como disse Roy Ascott: It´s the Nature II.
José Alessandro de Oliveira - josealessandro@yahoo.com.br