
Uma crônica sobre os cupidos eletrônicos
Por
José Alessandro Oliveira
(crônica
publicada no Jornal A Palavra do Bairro São João)
Autorização gratuita para reprodução: (51) 990-171-59 ou josealessandro@yahoo.com.br
Dia desses fui a um bar. Não estava muito vazio, aproximadamente 1.200 pessoas. Era um bar diferenciado, com muitas salas. Seres humanos das mais variadas espécies e localidades se agrupavam nas salas conforme o assunto que lhes interessava, a idade ou mesmo conforme o que buscavam nesse bar. Como ir vestido a um bar desses? Isso era o que menos importava. Eu, por exemplo, estava de chinelo, meias brancas, calça de dormir e uma camiseta qualquer, nem penteado estava...
Pois é, fui ao bar, conheci muita gente, troquei telefones, me diverti muito... sem ao menos sair de casa. E não foi nenhum tipo de viagem astral a La Paulo Coelho. Só conectei meu computador na linha telefônica e entrei na Internet.
Além de pesquisas e compras, a Internet fornece outro grande motivo para que, cada dia, mais gente a utilize: relacionamentos. Quando nasceu, sua principal aplicação era a troca de informações entre computadores do exército americano. Hoje, a cada dia, surgem outras dezenas de utilidades para a Internet. Algumas muito práticas e úteis, outras são tão inúteis que já existe até um catálogo, na própria Internet, dos endereços mais fúteis.
Apesar desta vasta lista de aplicações para a Internet, a que mais move os internautas são as que tem por objetivo firmar novos relacionamentos entre as pessoas. São centenas de endereços para as pessoas conversarem. Veja bem, e são relacionamentos meio de trás para diante: primeiro você conversa com a pessoa, fica sabendo sua idade, seus hobbies, seus gostos, suas principais características e por último, se vir a acontecer, você a conhece pessoalmente.
Existe outro lugar, este não parece um bar, que funciona como uma agência de namoros. As pessoas preenchem uma ficha com alguns de seus dados, deixam uma mensagem escrita e seu endereço eletrônico - e-mail - que ficam gravados num imenso banco de dados que é aberto a consultas 24h por dia, 7 dias por semana, e o melhor, você não paga nada para se escrever nem mesmo para consultar os dados. Basta informar: "procuro pessoas de 20 a 22 anos que gostem de cinema e viagens para muita amizade", e clicar "procurar", que o programa faz o resto... e quem garante que numa destas você não vai encontrar sua alma gêmea?
Cuidado! Apesar de tudo parecer tão fácil e divertido, corremos um grande risco. Procurar e conhecer pessoas pela Internet é algo sem problemas, super-normal! Mas se relacionar pela Internet é paranóia. Beijos virtuais e abraços multimídia não esquentam os pés de ninguém no inverno.
Beber uma taça de vinho tinto, em baixo das cobertas, abraçado no teclado do meu Pentium II não me parece muito excitante. Viajar para Santa Catarina e passar o feriadão dividindo uma cabana de vista pro mar com um notebook também não me chama a atenção.
Conhecer pessoas na Internet: sim. Cultivar relacionamentos regados à megabytes e arquivos GIF: não, obrigado. Prefiro trocar o chinelo, as meias brancas, a calça de dormir por algo mais inconfortável, passar um gel no cabelo e tornar-me novamente adepto de métodos mais rudimentares de relacionamentos.
José Alessandro de Oliveira - josealessandro@yahoo.com.br